domingo, 6 de janeiro de 2008
O PAÍS DOS CONTRASTES
De um Governo que se diz socialmente comprometido esperava-se que olhasse com outros olhos para as pensões mais baixasA agenda política tem destas coincidências assassinas. Em plena saga BCP e na sequência do discurso do Presidente da República acerca dos rendimentos obscenos de uma grande parte dos gestores públicos e privados - tema já aqui tratado mais de uma vez e, por sinal, em referência aos prémios de gestão no mesmo BCP - nada mais a propósito do que os aumentos das pensões. Os dois países do costume - por um lado, o país rico e com bolsas cada vez mais largas de uma ostentação indecorosa, por outro, o país pobre e com bolsas cada vez mais largas de uma miséria extrema -, nunca se encontram na vida real; mas cruzam-se nos noticiários da rádio e das televisões, ou nas páginas dos jornais. E quando isso acontece, como está a acontecer agora, ficamos com melhor noção do fosso que os separa e que os separa cada vez mais, num Portugal onde há pelo menos três décadas que os políticos enchem a boca com as palavras solidariedade e justiça social.Para se ter uma ideia do contraste chocante entre esses dois universos basta cotejar os sete euros de aumento para os milhares e milhares de reformados com 300 euros mensais com, os três/quatro milhões de euros que, só a título de exemplo, constituem o rendimento anual dos cargos agora em disputa no BCP. Isto para já não falar dos planos de saúde e de reforma milionários, através dos quais os gestores públicos e privados obtêm, muito cedo na vida, certo tipo de garantias. Como a de nunca virem a ser confrontados com a absoluta necessidade de, aos 70 ou 80 anos, terem de fazer cem quilómetros de ambulância para irem, a meio da noite, ao hospital mais próximo.Sabe-se que os reformados e as suas pensões são um clássico em todas as campanhas eleitorais e que, fora delas, tornam-se objectos privilegiados da demagogia, quer dos governos quer das oposições, em todas as estações políticas. É também a essa luz que deve ser lida a iniciativa do CDS em prol de um aumento intercalar das pensões que as corrija e compense em termos de poder de compra. Mas a verdade é esta: com ou sem motivações eleitoralistas, o CDS e os restantes partidos da oposição dizem, quanto ao fundo da questão, aquilo que toda a gente pensa. De um Governo que, forçado pelas circunstâncias, vem impondo sacrifícios generalizados, mas que continua a declarar-se socialmente comprometido - e até instituiu um complemento para as reformas abaixo dos 300 euros -, esperava-se um pouco mais. Esperava-se que, em relação aos reformados mais pobres, lhes garantisse alguma recuperação do poder de compra, tal como fez com os trabalhadores que recebem o novo salário mínimo. Para que, ao menos na parte em que o Estado ainda tem a palavra decisiva, a justiça social e a solidariedade sejam algo mais do que «slogans» de campanha, vazios de significado e de sentido.in "Expresso"
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4 comentários:
Faz sem dúvida uma análise realista da situação actual do nosso paias onde cada vez mais se acentua o fosso entre ricos e pobres,onde uma classe politica cada vez mais distante dos cidadãos procura cada vez mais o seu bem estar pondo de lado aquele que devia ser o objectivo nº 1 , qualidade de vida dos cidadãos.
JOY
Desculpe, mas os sacrifícios não são generalizados!!
Estão a cair em cima da geração mais sacrificada , aquela que está entre oa 50/60 anos. Leia-se a entrevista de Ferro Rodrigues `na "Visão", por exemplo.
Como sempre, pagam os mesmos...
Bom fim de semana!
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Abraço
É como diz a São.
Os mais pobres que paguem a crise!..
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